08/05/2016

Valeu a pena?


"Tinha 20 anos quando te conheci. Éramos muito diferentes, tu da nobreza, eu um mero escravo, mas as nossas almas completavam-se como nunca vira. Lembro-me tão bem dos longos fios de ouro que gostavas que eu acariciasse para que adormecesses, da imensidão dos teus olhos que me fazem lembrar o oceano que agora nos separa, da gargalhada que soava como uma melodia perfeita.

Fugimos seis meses depois para São Vicente porque acreditávamos que o nosso amor seria maior do que a não aprovação da relação pelos teus pais. O nosso primeiro ano foi óptimo, atrevo-me até a dizer que foi o melhor que vivi até hoje. Contudo, após os teus pais descobrirem onde nos encontrávamos o sonho tornou-se num pesadelo. Estávamos em fuga constante, com medo que nos descobrissem e te levassem com eles.

Com as mudanças de casa e cidades veio a instabilidade e as discussões. Em vez de tentarmos resolver as coisas, disseste-me que irias visitar os teus pais e a verdade é que eu também não te disse para ficares.

Prometeste-me que voltarias para mim, e apesar de saber que não passaram de palavras doces para me aquecerem o coração naquele momento de despedida, há uma parte de mim que continua com esperança que voltes antes que tudo o que ainda tenho de ti se desvaneça e nunca mais volte.

Oito anos passaram e embora saiba que estás casada e tens dois filhos com alguém como tu, da nobreza, continuo à tua espera, continuo a acreditar que o amor que tenho por ti continua a ser recíproco e que um dia voltarás.

Já não tenho tão presente na memória os teus olhos profundos, nem a tua gargalhada e já não consigo recordar-me do lindo timbre da tua voz. Agora pergunto-me se valeu a pena, se valeu a pena acreditar, esperar, amar-te. Às vezes chego à conclusão que não, no entanto o meu coração teima em contrariar a razão e a dizer que sim."

Maio 2015



* Há cerca de um ano a minha professora de português pediu-nos para escrever um conto sobre um amor proibido na época da colonização e foi este o texto que escrevi. Apesar de na altura não ter dado muita importância, um ano depois achei-o fantástico e decidi partilhá-lo. 

Espero que gostem!

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